O egoísmo, o amor e a histeria coletiva.
Dados os últimos acontecimentos no país resolvi liberar a resenha que fiz de HEX por que acho que boa parte do livro é um tratado sobre o egoísmo e algo com um quê de histeria coletiva, ou sobre fazer a coisa certa apenas se a coisa é certa pra você. Até onde o indivíduo pode abrir mão do bom senso e do coletivo, para dar lugar a barbárie em nome de um bem maior? E acreditem o tão clamado “bem maior” não justifica qualquer atrocidade cometida contra um ser humano e a cidade de Black Spring aprendeu isso da maneira mais cruel e perversa possível.
Até onde se pode castigar um grupo de adolescentes por serem adolescentes cruéis? Essa é uma pergunta bastante lógica e fácil de responder já que nós leitores vivemos numa sociedade cujo às leis são criadas e implementadas por governantes que escolhemos (e por sua vez eles têm a obrigação de defender os nossos interesses.) Mas a pequena cidade de Black Spring passa por uma grande dificuldade com a implementação de leis. Bom, não deve ser fácil ter as leis da sua cidade girando em torno da maldição da Bruxa de Black Rock.
HEX nós traz a uma cidade em suma maioria religiosa, crente e temente Deus e sedenta por redenção. (Um Deus que aparentemente não os abandonou ainda, mas também está pouco ligando para a pequena cidade que sofre com uma maldição que atravessa centenas de anos) - A bruxa Katherine van Wyler. - Enquanto a história real da bruxa não fica muito clara a cidade segue contando a mesma história sobre ela, uma que se contava há mais 300 anos como um infinito telefone sem fio: Katherine foi acusada de bruxaria depois que o seu filho vítima de varíola apareceu brincando na floresta e aparentemente Katherine o trouxe de volta dos mortos depois de ter feito um pacto com o diabo, (tinhoso, belzebu, sete peles e por aí vai). A história da bruxa não é contada com mais detalhes e isso é algo que me fez falta no livro - talvez isso desse para nós leitores meros mortais algumas pistas do que ela queria daquelas pessoas - No entanto, eles continuam a mercê da bruxa sem questionar nada.
Mas e se a história é verdadeira e você pudesse barganhar com a bruxa em troca da vida da pessoa que você mais ama no mundo? Mesmo sabendo que todo o resto da cidade iria sofrer com as consequências dos seus atos.
Durante a leitura eu pude notar que muito do que as pessoas de Black Spring fazem, elas fazem em benefício próprio, elas são egoístas, mesquinhas, hipócritas e quase o tempo inteiro elas se escondem por trás de uma máscara religiosa que permite que elas sejam gentis e educadas umas com às outras. Eu pensei muito antes de escrever isso por que em determinado momento fica claro que a bruxa tem algum poder, mas também fica claro que mesmo que não tivesse a cidade sucumbiria ao medo e isso levaria a violência, é isso que eu chamo aqui de “histeria coletiva” - Lispector diz: Ela acreditava em anjos e por que ela acreditava eles existiam - aqui se trocarmos a palavra anjo pela palavra monstro fica perfeitamente claro o exemplo. Na literatura existem várias formas de "histeria coletiva", o medo irracional de algo que se perpetua por toda uma sociedade e os torna reféns, é comum em seitas que todos compartilhem da mesma crença e isso faz seus seguidores agirem de acordo com sinais pré-estabelecidos que por acaso também são completamente previsíveis por uma determinada ciência ou método já inventado, mas ainda assim eles estão dispostos a sacrificarem tudo em razão de “um bem maior”.
E aqui é onde vai rolar um spoiler (mas é muito pequeno)
Vemos então a cidade em pandemônio, seus moradores gritam acusações, se atacam verbalmente e se golpeiam com vários tipos de objetos que trouxeram de suas casas (ora, mas se tu não tens a intenção de atacar alguém, é só não sair armado) vemos também a bruxa que se antes estava presa à correntes de ferro pesadas e tinha sua boca e olhos costurados, agora já não arrastava correntes e seus olhos e boca estavam livres dos pontos. Katherine caminhava de mãos dadas com um casal de crianças às quais a população logo reconheceu e mesmo que notassem que às crianças não estavam com medo da bruxa, eles a atacaram e as crianças foram atingidas. E isso é o que parece ter acontecido há mais de 300 anos quando depois de acusada ela é obrigada a cometer suicídio, mas aqui os moradores vão tentar atacá-la e já é de se esperar que não vai dar muito certo.
Eu tenho que dizer pra vocês que para mim Katherine é a personagem principal da história, mesmo que o livro trace muitos caminhos e apresente a história de muitos personagens deixando a historia da bruxa bastante reduzida (Katherine van Wyler tinha dois filhos, um menino que depois de “ressuscitado” ela foi obrigada a matar após ser acusada de bruxaria para proteger a sua outra filha uma menina por quem ela aceitou cometer suicídio. Sim, ela foi sua própria executora já que foi acusada além de bruxaria de matar seu próprio filho, sendo assim para expurgar seus pecados Katherine foi obrigada a se enforcar)... É claro que a família Grant é uma grande parte desse enredo eles estão em 80% das páginas, atuando direta ou indiretamente com a bruxa, e mesmo sem nenhuma fala, sem nunca dizer uma palavra a bruxa tende a transparecer em ações às suas vontades. E só no final vai ficar claro o que ela queria, e podemos pensar que se a tivessem ouvido antes, mesmo antes de matarem seus filhos, nada disso aconteceria. E a pequena cidade de Black Spring ao norte do rio Hudson ainda estaria lá para receber seus visitantes.
Aqui tem uma pequena mostra do que esperar da Bruxa:
Notas do autor: No final do livro Thomas Olde Heuvelt faz seus agradecimentos e nos conta micro histórias: como o fato de sua babá já lhe deixar assustado antes de dormir aos 7 anos de idade ou de que o livro que acabamos de ler e foi originalmente escrito e publicado era ambientado em um pequeno vilarejo da holanda e ele teve bastante trabalho e ajuda de tradutores para trazer todo o vilarejo para às margens do Rio Hudson.
_ Tradução de Fabio Fernandes
_A partir da tradução inglesa de Nancy Forest-Flier


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